sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Parte X - TEATRO FOLLIES - 1949 - Ascensão




Em 1949, Juan Daniel Ferrer construiu em Copacabana o Teatro Follies e com sua mulher criou sua própria companhia.

Juan Daniel, como se tornou conhecido, era espanhol nascido no ano de 1907, em Barcelona, que emigrou para a Argentina com sua família em 1923.

Em Buenos Aires, ingressou no teatro de revistas, como bailarino e posteriormente tornou-se ator-cantor, que se apresentava de cara pintada e cantava Sonny Boy imitando o famoso cantor negro norte americano, Al Jolson.

Em 1929, Juan Daniel emigrou para o Brasil, onde se casou com a atriz argentina, Maria Irma López, com quem teve dois filhos.

No Brasil, Juan Daniel se apresentou como cantor em diversas emissoras de rádio e mais a frente atuou como cantor e diretor artístico do Cassino Atlântico.
Em 1946, o governo Dutra fechou os cassinos e Juan Daniel, desempregado, passa a atuar em circos, em seguida no Teatro Jardel, numa revista ao lado de Mara Rúbia e Renata Fronzi.

Juan Daniel apreciava um carteado e com frequência se reunia com um grupo de parceiros para arriscar a sorte no jogo. Foi quando conheceu  Leopoldo Augusto da Silveira Franca, um dos parceiros de jogo e proprietária da loja situada no andar térreo do Edifício Safira, na Av. Copacabana 1246. Juan Daniel propôs-lhe uma parceria para a instalação de um teatro no referido imóvel, ele imediatamente aceitou e logo iniciaram as obras necessárias para adaptação.

Com o apoio financeiro de Leopoldo, Juan Daniel contratou os melhores profissionais da época, os quais se encarregaram de suprir o novo teatro com cerca de trezentas confortáveis poltronas, um pequeno palco e uma cabine de comando elétrico das luzes de cena.

No subsolo, situavam-se os camarins, onde se acomodavam os atores, os quais durante as horas de apresentação, vez por outra eram surpreendidos por inesperada inundação que transbordava pelos ralos.

O subsolo do edifício Safira dispunha de uma única caixa receptora dos esgotos de todo o prédio, cujas águas e detritos eram recalcados por uma bomba elétrica para a rede de esgotos da rua. 


 Uma operação que não podia falhar, mas que o esperto Almeida, administrador do prédio, propositalmente provocava a pane e se beneficiava com as gratificações e forjadas notas fiscais frias, correspondentes à prestação de serviços; isto é, o Almeida criava dificuldades, para vender facilidades. 


O desconforto era tamanho, que todos tínhamos que caminhar sobre tábuas distribuídas por todo o trajeto entre os camarins e o palco, agravado pelos odores fétidos da merda flutuante.


Apesar das inconveniências apresentadas, as instalações do novo Teatro Follies eram superiores aos demais teatros de bolso existentes na zona sul do Rio de Janeiro.

Em 1950,  o Teatro Follies anunciava na sua fachada, com legendas  em diferentes cores, feericamente iluminadas pela luz do neon, a estréia da exótica dançarina Luz Del Fuego.
 Luz Del Fuego estudou na Europa, de volta ao país, provoca a revolução nos costumes e, Juan Daniel convida-a para inaugurar o teatro.

Com suas apresentações de dança, na época, ela era a grande atração, graças à curiosidade despertada no público, o qual superlotava diariamente o teatro.
Ela foi a primeira naturista do país, nasceu em 1917, na cidade de Cachoeiro de Itapemirim, estado do Espírito Santo.

Em 1967, quando solitariamente habitava a Ilha do Sol,  Luz Del Fuego e seu caseiro foram barbaramente assassinados por dois pescadores assaltantes, seus corpos foram amarrados em pedras e lançados ao mar.

Cabe lembrar, que nas décadas de 1940/1960, não havia patrocinadores, os teatros dependiam exclusivamente da venda dos ingressos das apresentações  que ocorriam diariamente com duas seções as terças, quartas e sextas-feiras, nos horários de 20h às 22h e 22h à 00h.  Às Quintas, sábados e domingos ocorriam as matinês das 16 às 18 horas. Segunda-feira era  o dia de folga dos atores, assim, à noite ocupavam todas as mesas dos Restaurantes da Rua Pedro I, na Praça Tiradentes e, a partir de 1957, o “La Fiorentina”, do Leme.

Juan Daniel revelou-se um parceiro pouco confiável  e  Leopoldo designou  seu genro, o Tenente Antônio Carreira, para representá-lo na fiscalização da bilheteria, que por sua vez admitiu a bilheteira Helena, a qual era de sua total confiança.

O Tenente Antônio Carreira, que se tornou meu amigo, até hoje se comove ao relembrar os velhos tempos.

Ele possui todo um passado, cuja história pretendo relatar mais adiante.

Como jovem tenente, era um idealista e admirador de Carlos Lacerda, como tal integrou o grupo da famosa República do Galeão e, após o Golpe de 1964, tornou-se um dos mais importantes empresários da indústria de telecomunicações do país.

Antônio Carreira fundou a "INDUCO" e nesse derradeiro empreendimento teve como colaboradores imediatos os correligionários, companheiros de farda e de aventuras, Veloso e Lameirão. Reúnem os três um histórico que os remete à uma das tentativas de golpe no governo de Juscelino.
 Foram eles os autores do primeiro sequestro de um avião da Panair, desviado em 1956, do Rio de Janeiro  para Jacareacanga, Estado do Pará.



Elvira Pagã, cujo verdadeiro nome era, Elvira Cozzolino,  nasceu em 1920,  na cidade de Itararé, São Paulo, era paulista de nascimento e carioca por adoção. Faleceu no Rio de Janeiro, em 2003.

Junto com Luz Del Fuego, ela Integrou o elenco da “Companhia Juan Daniel”, no Teatro Follies.


Elvira Pagã era um mito sexual, como estrela do teatro de revista disputava a liderança com Luz Del Fuego.



Em 1950, Elvira lançou o biquíni na praia de Copacabana e foi eleita como a primeira Rainha do Carnaval carioca.

No Natal desse mesmo ano,  posou nua para uma foto e enviou-a  como cartão de boas-festas para os amigos e demais personalidades da época.



Elvira Pagão e Luz Del Fuego, seguramente foram as principais estrelas capazes de mobilizar platéias advindas dos mais longínquos bairros do subúrbio do Rio de Janeiro e outras plagas deste país. Foram ambas as principais responsáveis pelo sucesso financeiro do empresário Juan Daniel, que perdurou até  fins do ano de 1951.

Nesse ano, Juan Daniel, que era um mau pagador,  acabou sendo expulso do Teatro pelo então,  proprietário do imóvel,  Tenente Antônio Carreira. 

Desistiu de ser  empresário e ingressou na TV, onde integrou como produtor na equipe do Boni, o José Bonifácio de Oliveira Sobrinho. 

Zilco Ribeiro foi o novo parceiro de Antônio Carreira, desta vez  um colega de farda,  um ex-piloto,  instrutor de vôo da FAB,  que acabara de ingressar no teatro como o mais novo empresário. Uma história que nos deteremos em capítulo próximo. 

AGUARDEM!


2 comentários:

Aníbal Bragança disse...

Este é um trabalho de quem viu acontecer. Cada depoimento enriquece a história do teatro no país.
Parabéns!

Guidacci disse...

Para quem gosta de teatro e mulherão é um prato feito!